Primavera do Leste deu um passo considerado inédito em Mato Grosso ao implantar um sistema digital próprio para cadastro e gestão da agricultura familiar. Desenvolvida pela Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente, por meio da Coordenadoria de Agricultura Familiar, a ferramenta substitui o antigo modelo em papel e já está em funcionamento. Até o início da atual gestão, o cadastro mais recente disponível era de 2021. Em 2022, segundo o coordenador Leandro Scheffler, não houve atualização formal, apenas anexos físicos em pastas.
“Era tudo no papel, muito solto. Quando a gente precisava de números para apresentar em Cuiabá ou tentar enquadrar o município em algum programa, simplesmente não tinha”, explicou. Essa ausência de dados consolidados dificulta o acesso a políticas públicas junto à SEAF, em Cuiabá, por exemplo, bem como a outros órgãos estaduais e federais. A partir dessa necessidade, a equipe começou a desenhar o sistema, que hoje permite mapear quem são os produtores, o perfil das famílias, características das propriedades e detalhes da produção.
Cadastro detalhado e inteligência de dados
O sistema é dividido em cinco abas principais. A primeira reúne informações pessoais e sociais do produtor e da família, dados que são essenciais para enquadramento em programas como Pronaf e políticas que priorizam famílias chefiadas por mulheres. Atualmente, metade das vendas destinadas à alimentação escolar precisa estar em nome da mulher, garantindo protagonismo feminino na agricultura familiar.
A segunda aba traz dados da propriedade: área total, área cultivada, localização via mapa, tipo de posse (assentamento, arrendada, própria), além da situação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). A ferramenta permite, inclusive, visualizar a localização exata para facilitar atendimentos técnicos e serviços de campo.
Na parte de produção, o sistema detalha culturas, área cultivada por produto, volume estimado mensal e anual, tipo de cultivo (convencional, orgânico, agroecológico ou hidropônico) e destino da comercialização. Isso possibilita responder rapidamente a perguntas estratégicas, como o volume total de alface produzido no município ou quantos produtores trabalham com hidroponia. Também é possível registrar criação de animais: bovinos (corte ou leite), aves (corte ou ovos), suínos, peixes e outros, ampliando o mapeamento da produção local.
Outro eixo importante do trabalho envolve a regularização fundiária, especialmente em assentamentos como o São Gabriel, que há décadas enfrentava entraves burocráticos. A titulação das terras é fundamental para que os agricultores possam acessar crédito e políticas públicas. O sistema também permite identificar rapidamente quem possui CNAF (Cadastro Nacional da Agricultura Familiar), documento obrigatório para participação na alimentação escolar e outros programas. Com isso, a equipe consegue direcionar esforços apenas aos produtores aptos ou que possam se regularizar, evitando perda de tempo e aumentando a eficiência.
Além disso, a plataforma registra vínculos com instituições como SENAR, SEBRAE, EMPAER, universidades e órgãos estaduais, facilitando futuras parcerias técnicas, inclusive para projetos como análise de solo, uma demanda histórica dos pequenos produtores. Mas a inovação não se limita ao cadastro. Todos os serviços prestados pela Secretaria agora estão vinculados ao sistema.
Ao solicitar um atendimento, seja assistência técnica, transporte, horas-máquina, retroescavadeira, capacitação ou orientação para crédito rural, o produtor recebe um número de protocolo. Leandro explica que a "solicitação fica registrada com data, responsável pelo atendimento, prioridade (urgente, alta, média ou planejada) e tipo de serviço. A equipe consegue acompanhar a fila, organizar demandas e garantir maior transparência no processo". Além disso, o produtor também recebe uma via impressa do protocolo para acompanhar o pedido.
Com o novo sistema, a Secretaria passa a ter dados consolidados sobre área total da agricultura familiar, volume de produção, mercados atendidos e número de produtores organizados em associações ou cooperativas, informação estratégica para buscar recursos, emendas parlamentares e maquinário.
“A primeira coisa que perguntam quando a gente vai atrás de programa é: quantos produtores vocês têm? Quanto produzem? Antes a gente não tinha isso organizado. Agora temos números”, reforça o coordenador.
A expectativa é que o modelo sirva de referência para outros municípios do Estado, consolidando Primavera do Leste como exemplo de organização e planejamento na agricultura familiar.



















