Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2026
icon-weather
DÓLAR R$ 4,08 |

30 de Janeiro de2026


Área Restrita

Notícias do Agro Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026, 10:44 - A | A

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026, 10h:44 - A | A

Clima e uso repetitivo de fungicidas

Doença silenciosa avança na soja e desafia produtores no campo

Intensificação produtiva, clima e uso repetitivo de fungicidas impulsionaram a doença nos últimos anos

Administração

 

Silenciosa e de difícil percepção nos estágios iniciais, a cercosporiose vem ganhando espaço nas lavouras de soja e exigindo mudanças no manejo adotado pelos produtores.

Em entrevista exclusiva ao Mundo Agro, Patricia Guerra, gerente sênior de Marketing Cultivo e Portfólio Soja da BASF, explicou por que a doença se tornou uma ameaça crescente e quais estratégias são fundamentais para o controle eficiente.

 
Patricia Guerra, gerente sênior de Marketing Cultivo e Portfólio Soja da BASFFoto cedida: BASF

Mundo Agro: O que mudou nos últimos anos para que a cercóspora se tornasse uma ameaça maior à soja?

 

Patricia Guerra: O aumento da incidência na cultura da soja nos últimos anos está diretamente relacionado a mudanças no sistema produtivo. A intensificação das áreas cultivadas elevou a pressão de inóculo, enquanto o desenvolvimento e a ampla adoção de cultivares com foco prioritário em rendimento, muitas vezes sem considerar a expressão de doenças foliares, aumentaram a suscetibilidade das plantas. Soma-se a isso o uso intensivo e repetitivo de fungicidas com os mesmos mecanismos de ação, sem a introdução de novas moléculas, o que favoreceu a pressão de seleção e a perda gradual de eficiência dos produtos. Alterações na época de semeadura, associadas a condições climáticas com temperaturas mais altas em diversas regiões, além do uso de fungicidas inadequados e falhas na tecnologia de aplicação, contribuíram para a criação de um ambiente ainda mais favorável ao patógeno. Adicionalmente, nos últimos ciclos, o manejo fitossanitário esteve fortemente direcionado a doenças de maior impacto direto no rendimento, como ferrugem-asiática, mancha-alvo, antracnose e mofo-branco, fazendo com que a cercosporiose permanecesse em segundo plano nos programas de manejo, evoluindo de forma silenciosa e ganhando relevância nas áreas produtoras de soja.

Mundo Agro: Por que a arquitetura das novas cultivares de soja aumenta a vulnerabilidade à cercóspora?

 

Patricia Guerra: As cultivares modernas de soja possuem menor Índice de Área Foliar (IAF) e uma arquitetura de planta mais compacta, o que torna cada folha ainda mais importante para o desenvolvimento da lavoura. No passado, uma leve desfolha nem sempre era vista como um problema, mas hoje a lógica é diferente: quando a “fábrica” da planta opera com menos folhas, qualquer perda afeta diretamente Internal a produção de energia, comprometendo o enchimento das vagens e o peso dos grãos. Além disso, à medida que a soja cresce, as plantas se fecham e formam uma espécie de “guarda-chuva”, dificultando a chegada do fungicida às partes mais baixas, justamente onde a cercosporiose costuma iniciar. Quando a aplicação não é feita no momento correto, o fungo consegue se estabelecer no baixeiro e evoluir para as partes superiores da planta, intensificando a doença. Soma-se a isso o fato de que, em áreas com pouca palhada no solo, o respingo das gotas de chuva pode lançar os esporos da doença para as folhas mais baixas, criando condições ideais para a infecção e o avanço da cercosporiose. Nosso objetivo é entregar mais valor ao produtor por meio de um portfólio completo, que inclui proteção química e biológica, sementes, biotecnologia, tecnologias digitais e até serviços financeiros. Esse esforço global é sustentado pelo compromisso de transformar conhecimento científico em impacto real no campo - e o Brasil segue como um dos principais territórios onde essa transformação acontece de forma concreta.

Mundo Agro: Por que o controle tardio da cercóspora é pouco eficiente?

 

Patricia Guerra: Costumamos dizer que todo fogo começa pequeno, e se combatermos logo no início tudo fica mais fácil, agindo de forma preventiva nos estágios vegetativos quando a contaminação das plantas se inicia o controle se torna bem mais eficiente. Se não for combatida à tempo, vai se desenvolver de forma geométrica acompanhando o desenvolvimento da planta. Quando os sintomas ficam evidentes, já fica evidenciado perdas em produtividade uma vez que a doença já evoluiu internamente e já se estabeleceu, e se temos área foliar comprometida teremos redução no rendimento de grãos.

Mundo Agro: Quais são os principais erros cometidos pelos produtores no manejo dessa doença?

Patricia Guerra: Subestimar a doença por ser “silenciosa” e se expressar com maior intensidade mais no final de ciclo do cultivo; iniciar o combate tarde quando os sintomas são visíveis; usar programas de controle ineficientes e repetitivos (mesmas misturas/MoAs); descuidar da tecnologia de aplicação (cobertura/volume/alvo/horário); praticar intervalos entre aplicações sem um critério estabelecido e não considerar o histórico da região para ajustar manejo mais adequado.

Mundo Agro: Qual a importância do uso de sementes sadias e tratadas no controle da cercóspora?

Patricia Guerra: Semente sadias e tratadas contribuem para redução e introdução de fonte de inóculo em áreas novas, oferece uma vantagem competitiva para as plântulas ao favorecer o arranque inicial, o vigor e estabelecimento da lavoura, reduz o estresse aumentando a resistência da planta. Se o produtor quer colher bem, tem que começar bem, e a utilização de sementes de qualidade é fundamental para o sucesso da lavoura, mas é importante lembrar sempre que o inóculo está presente no solo e restos culturais, o que não impede o desenvolvimento da doença. Além disso, é relevante a complementação com tratamento das sementes para reduzir a taxa de evolução da doença na parte aérea das plantas.

Mundo Agro: Como a rotação de culturas contribui para a redução da doença?

Patricia Guerra: A rotação de culturas quando utilizada de forma correta contribui para reduzir a presença do inóculo na área, ou seja, quebrar ciclo da doença, para que isso seja possível é obrigatório o uso de culturas não hospedeiros e que não permitam que o inóculo se mantenha ativo, o que reduz a presença e consequentemente a pressão inicial da doença na lavoura.

Mundo Agro: O que é o conceito Escudo Verde e como ele funciona na prática?

Patricia Guerra: O Escudo Verde é a estratégia de manejo de fungicidas da BASF para a cultura da soja. Não se trata de um programa rígido ou de um pacote fechado, mas de uma solução flexível, que pode ser adaptada conforme a região, a safra e o cenário de pressão de doenças, com o objetivo de proteger a lavoura ao longo de todo o ciclo. A estratégia é composta por três fungicidas - Belyan®, Blavity® e Keyra®- posicionados de forma complementar, cada um com benefícios específicos e atuação em diferentes momentos da soja, contribuindo para o controle de doenças como ferrugem-asiática, mancha-alvo e cercosporiose, além de apoiar a gestão de resistência e a consistência de controle. Na primeira aplicação, do V6 até o fechamento das entrelinhas, o foco é a proteção do baixeiro e a maximização da área foliar, utilizando tecnologias de alta performance. A segunda aplicação, entre R1 e R3, concentra-se na defesa do terço médio da planta, fase em que grande parte da produtividade é definida, com máxima eficiência para mancha-alvo e ferrugem. Já a terceira e quarta aplicações, no fim do ciclo, têm como objetivo a blindagem da lavoura em um momento de maior risco para cercosporiose, doenças de final de ciclo e ferrugem, garantindo proteção até a colheita.

Mundo Agro: Como os fungicidas Belyan®, Blavity® e Keyra® se complementam ao longo do ciclo da soja?

Patricia Guerra: A estratégia de complementação de fungicidas foi amplamente estudada pela BASF considerando o estágio de desenvolvimento da soja e o perfil de doenças mais comuns em cada fase do ciclo. De forma simples, o manejo funciona como uma corrida de revezamento: cada fungicida entra no momento certo, entrega sua melhor performance e “passa o bastão” para o próximo, mantendo a lavoura protegida ao longo de todo o ciclo. Essa abordagem resulta em um manejo robusto, que equilibra seletividade, amplo espectro de controle e alta eficiência contra as principais doenças da soja. A estratégia utiliza fungicidas com diferentes mecanismos de ação, reduzindo a exposição repetitiva dos patógenos e contribuindo para a gestão da resistência. Sempre que o monitoramento indicar necessidade, o manejo pode ser complementado com outros fungicidas ou métodos de controle alternativos, garantindo um escudo contínuo de proteção da lavoura.

Mundo Agro: De que forma a BASF adapta suas recomendações às diferentes regiões produtoras do Brasil?

Patricia Guerra: A BASF busca entender as melhores práticas agronômicas para cada região levando-se em conta o histórico de ocorrência de doenças da área, cultivar semeada, clima, tratos culturais, e entendendo quais as principais dores dos agricultores. Em um país com a extensão do Brasil é comum termos ocorrência de doenças de forma desuniforme exigindo o monitoramento constante e recomendações pontuais. Além disso, temos um time técnico altamente capacitado e a disposição para atender os agricultores e oferecer as melhores recomendações e soluções buscando maiores tetos produtivos.

Mundo Agro: Quais diferenciais os novos fungicidas em desenvolvimento trazem em relação aos produtos atuais?

Patricia Guerra: A inovação faz parte do DNA da BASF, que atua de forma contínua para entregar soluções cada vez mais eficientes e sustentáveis aos agricultores. Os fungicidas desenvolvidos pela BASF se baseiam em moléculas únicas, combinações sinérgicas e tecnologias inovadoras, como o Revysol®, cuja molécula flexível se adapta ao sítio de ação, promovendo ligações até 100 vezes mais fortes e maior consistência de controle. Esse compromisso com inovação, por meio de investimentos contínuos em novos ingredientes ativos alinhados às Internal necessidades do mercado, eleva a eficiência agronômica no campo, fortalece o manejo de resistência e garante soluções mais duráveis e eficazes ao agricultor.

Mundo Agro: Como a BASF trabalha para evitar resistência de fungos aos fungicidas?

Patricia Guerra: Trabalhamos com monitoramento constante no campo, adotamos rotação de fungicidas com diferentes mecanismos de ação, priorizamos a aplicação dos fungicidas de forma preventiva, temos os cuidados com a tecnologia de aplicação colocando o produto no alvo desejado, adotamos a adição de fungicidas multissitios, que tornam o manejo da resistência mais efetivo, sem esquecer que tudo isso deve estar aliado as boas práticas de campo, mão de obra qualificada e capricho na execução. No campo, contamos com uma equipe altamente qualificada que acompanha e orienta nossos clientes no uso das soluções para exercer menor pressão de seleção dos fungos aos fungicidas. E como uma empresa de inovação estamos na busca constante para soluções diferenciadas, soluções e grupos químicos, essenciais para ampliar o controle com sustentabilidade exigida do manejo ao longo do tempo.

Comente esta notícia

Rua Rondonópolis - Centro - 91 - Primavera do Leste - MT

(66) 3498-1615

[email protected]