Internacional|Jessie Yeung, Gawon Bae, da CNN Internacional
Foto-Revue Conflits
Tudo começou com uma bolsa de grife. Depois outra, depois um colar de luxo, e mais.
Agora, isso terminou em prisão para a ex-primeira-dama da Coreia do Sul.
Kim Keon Hee, esposa do destituído (e também preso) ex-presidente Yoon Suk Yeol, foi condenada nesta quarta-feira (28) a um ano e oito meses de prisão por corrupção — em apenas um dos três processos criminais que enfrenta. Tanto os promotores quanto a defesa de Kim podem recorrer da decisão.
O tribunal considerou Kim culpada por aceitar subornos da controversa seita religiosa Igreja da Unificação, incluindo uma bolsa da Chanel e um colar de diamantes da marca Graff.
No entanto, ela foi absolvida das acusações de manipulação de ações e de conspiração com o marido para receber gratuitamente pesquisas de opinião pública, por falta de provas suficientes e por prescrição dos crimes — além de ter sido inocentada da acusação de receber uma segunda bolsa da Chanel.
Os promotores estimaram que, somadas, as ações, os subornos e as pesquisas tinham valor de 1,15 bilhão de won sul-coreanos (aproximadamente R$ 4,2 milhões).
Kim “fez uso indevido de seu status como meio para obter lucro… A ré foi incapaz de recusar itens de luxo caros fornecidos em troca de favores especiais e demonstrava sede por recebê-los e usá-los para se adornar”, afirmou o juiz Woo In-seong, do Tribunal Distrital de Seul, na sentença.
No entanto, Woo acrescentou que Kim não pediu os presentes, não repassou solicitações da igreja ao marido e agora está “refletindo sobre seus atos”.
Casal em julgamento
Este é o golpe mais recente contra o ex-casal presidencial, que repetidamente negou irregularidades, embora Kim tenha admitido ter recebido as bolsas da Chanel da Igreja da Unificação.
Yoon está sendo julgado por insurreição devido à sua breve declaração de lei marcial em 2024, além de uma série de outras acusações.
Mas sua esposa se envolveu em escândalos muito antes — com as acusações de manipulação de ações ligadas a uma concessionária de automóveis remontando a mais de uma década.

“Kim Keon Hee usou seu status de esposa do presidente para receber facilmente dinheiro e bens caros, além de intervir amplamente em várias nomeações e indicações de cargos”, afirmou Min Joong-ki, que chefiou a equipe do promotor especial, em 29 de dezembro, após concluir uma investigação de 180 dias.
O líder da Igreja da Unificação — também conhecida como os “Moonies”, fundada na Coreia do Sul e que se espalhou pelo mundo — também responde a processo pelas acusações de suborno.
Longa lista de escândalos
Desde o início, Kim não era uma primeira-dama típica.
Ela havia trabalhado no setor de artes, tendo fundado sua própria agência de exposições, quando se casou com Yoon em 2012. Na época, ele ainda era promotor e não havia ingressado na política.
Kim manteve alta visibilidade como primeira-dama, frequentemente usando roupas elegantes em viagens presidenciais ao exterior, o que lhe rendeu tanto elogios quanto críticas no país.
Isso a diferenciava de outras primeiras-damas sul-coreanas, tradicionalmente vistas como figuras discretas, atuando nos bastidores.
Mas suspeitas sobre sua conduta já haviam surgido durante a campanha de Yoon à Presidência.
Em 2021, Kim pediu desculpas por inflar seu currículo e prometeu “manter o foco em meu papel como esposa” caso o marido vencesse a eleição no ano seguinte.

A Universidade Kookmin, onde ela obteve o doutorado, retirou seu título após a decisão da Sookmyung, apesar de tê-la absolvido de má conduta em uma investigação anterior.
Durante anos, circularam alegações de que Kim manipulou ações entre 2010 e 2012 relacionadas à concessionária coreana da BMW, a Deutsch Motors, obtendo lucros indevidos.
A imagem do casal piorou quando Yoon, já como presidente, vetou um projeto de lei que previa uma investigação especial sobre sua esposa.
Presente foi a gota d’água
Mas a gota d’água foi uma bolsa Christian Dior de US$ 2.200 (sem relação com as bolsas da Chanel pelas quais ela foi condenada nesta quarta-feira).
No fim de 2023, um canal do YouTube de esquerda divulgou um vídeo gravado secretamente em que um pastor coreano-americano presenteia Kim com uma bolsa de couro de bezerro.
A conversa, ocorrida em 2022 após a eleição de Yoon, foi registrada por uma câmera escondida no relógio de pulso do pastor.
Durante o encontro, Kim é ouvida dizendo: “Por que você continua trazendo essas coisas? Por favor, não precisa fazer isso”. As imagens não mostram Kim pegando a bolsa — mas ela também não aparenta recusá-la, e uma sacola da Dior aparece sobre a mesa de centro enquanto eles conversam.
A lei anticorrupção da Coreia do Sul proíbe autoridades públicas e seus cônjuges de receber presentes avaliados em mais de US$ 750 em conexão com suas funções públicas.
O escândalo explodiu, e o apoio a Yoon caiu a níveis inéditos. Kim praticamente desapareceu da vida pública, até que o presidente declarou lei marcial numa noite de terça-feira no fim de dezembro de 2023, lançando o país — e o casal — em uma crise muito maior.

Os parlamentares rapidamente derrubaram o decreto de lei marcial do presidente depois de enfrentarem soldados armados para entrar no Parlamento.
Yoon sofreu impeachment e foi removido do cargo, e investigações especiais logo começaram contra ele, sua esposa e seus auxiliares — incluindo o primeiro-ministro, que foi condenado na semana passada a 23 anos de prisão.
No início deste mês, Yoon foi condenado a cinco anos de prisão por desafiar tentativas de detenção e por negar aos ministros do gabinete a oportunidade de debater seu decreto de lei marcial.
Outras condenações, possivelmente mais longas, ainda podem ocorrer; ele enfrenta oito processos criminais adicionais, incluindo acusações de rebelião.

Um presidente sul-coreano acabar na prisão não é algo incomum. O próprio Yoon, quando atuava como promotor, ajudou a derrubar a ex-presidente Park Geun-hye, que foi presa por corrupção e abuso de poder.
Esta, porém, é a primeira vez que um ex-casal presidencial é preso ao mesmo tempo.




















