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Segunda-feira, 03 de Maio de 2021, 06h:30

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Apostilas versus qualidade na educação: algumas provocações

A qualidade sempre foi um desafio importante a ser enfrentado na educação, uma vez que é um fator essencial para que a educação avance e o ensino aprendizado aconteça.


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Kátia Cristina Carse Alcover

Para contextualizar, em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou como pandemia o surto de transmissão da Covid-19. Desde então, o mundo todo tem sofrido com medidas restritivas e isolamento social. Comércios, empresas e serviços tiveram suas rotinas alteradas e no setor educacional não foi diferente. As atividades presenciais foram suspensas, sendo substituídas pelas aulas remotas. O advento das aulas remotas escancara a desigualdade social e traz à tona uma antiga, mas sempre recente discussão, a qualidade na educação.

A qualidade sempre foi um desafio importante a ser enfrentado na educação, uma vez que é um fator essencial para que a educação avance e o ensino aprendizado aconteça. Mas afinal o que vem a ser qualidade? Quais os critérios para determinar o que é qualidade? É ter boas notas? É passar de ano? Decorar conteúdos?

A qualidade está muito além desses pontos elencados acima. Qualidade na educação é um conjunto de fatores, como: a formação contínua de professores, a dinâmica das aulas, a infraestrutura oferecida, mais recursos pedagógicos nas escolas, recursos tecnológicos disponíveis, entre outros aspectos do processo ensino aprendizagem. Estes aspectos, muitas vezes, estão presentes apenas nos discursos e muito pouco nas ações, pois esta tão almejada qualidade tem sido buscada fora do contexto escolar: nos mercados educacionais, com a compra de materiais apostilados de empresas privadas de ensino na crença de que este tipo de material é a redenção na melhora do aprendizado dos estudantes e o discurso não altera: “o município optou por implantar o sistema apostilado como uma forma de melhorar o aprendizado dos alunos e a qualidade do ensino”. Isso pode ser observado na voz do atual Secretário Estadual de Educação, (2021), durante um evento organizado pelo estado para o recebimento das apostilas “Os alunos têm direito ao acesso a um material de qualidade”.

Sim, é necessário oferecer aos estudantes educação de qualidade, mas reforço que esta qualidade não se limita apenas a uma apostila. O material apostilado tem suas vantagens? Com certeza, pois é colorido, chama a atenção dos estudantes, dos pais, dos professores; já vem encadernado, não tem falhas na impressão e é elaborado com papel de qualidade.

Por outro lado, se o material for bimestral, obriga os professores a trabalhar o que está imposto ali para trabalhar naquele bimestre. E se por acaso a turma não estiver “preparada” para aquele conteúdo naquele momento?

Não podemos ignorar que os pacotes apostilados tratam os estudantes como se fossem todos iguais, como se suas aprendizagens acontecessem ao mesmo tempo, com os mesmos materiais e metodologias, sem considerar as diversidades culturais e sociais dos locais e das escolas onde serão utilizados, pois eles são planejados, elaborados e pensados, na maioria das vezes, distantes de seu local de consumo e por pessoas que não fazem parte daquela realidade.

Hoje o Estado de Mato Grosso vive esta situação. Com 903.207,050 km², aproximadamente 3.526.220 habitantes (IBGE), distribuídos em 141 municípios, o poder público adquire materiais apostilados para 233.335 estudantes e professores da rede estadual (SEDUC). Um estado nesta dimensão colocará todos os estudantes no mesmo patamar, de norte a sul, leste a oeste, como se todos tivessem a necessidade dos mesmos conteúdos e ao mesmo tempo, ou seja, todos ordeiramente fazendo a mesma coisa conforme o prescrito, como se não houvesse diferenciação humana.

É preciso considerar que os alunos provêm de diferentes contextos e incorporam diferentes experiências, práticas linguísticas, culturas e talentos (Giroux, 1992, p. 19) e o professor pode e deve construir o currículo em função das necessidades sociais e culturais dos alunos, ressaltando os seus significados.

Neste sentido, destaco que pensar no estudante é o papel da educação. E finalizo com algumas provocações: será que usar um material desse é pensar em nossos estudantes? Por que não incentivar o uso do livro didático e investir este dinheiro onde realmente é necessário? E deixar de privilegiar empresas privadas?

 

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Kátia Cristina Carse Alcover

Professora pedagoga, Mestra em Educação

2 Comentário(s)
Parabéns pelas colocações que realizou! Conseguiu retratar a situação perfeitamente.
enviado por: Vânia Regina Otsuka Lopes em 03/05/2021 às 11:53:59
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Há diferenças de alunos no MT e no Brasil? Sim, é evidente, mas é preciso "puxar" um pouco mais os alunos. Se não estiver preparado, a escola deve criar meios no contra turno para prepará-lo, o que não se pode mais admitir é o "nivelamento por baixo". Não se pode esquecer dos que não estão preparados, mas também não pode atrasar os que estão. Há décadas as escolas privadas aderiram as apostilas que já são mais do que isso, são livros integrados, e obtém ótimos resultados. Super concordo com as apostilas. Parabéns ao Secretário Allan Porto!!!! Alguém com coragem para experimentar a mudança!
enviado por: Marcelo em 03/05/2021 às 17:27:54
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